Reformas de Temer vão acabar com o Brasil, diz sociólogo

Originalmente publicada no Novo Jornal.

O professor de ciência política da Universidade Federal Fluminense (UFF), de Niterói (RJ), Jessé José Freire de Souza, de 56 anos, não é um dos mais entusiasmados com o futuro do Brasil nas mãos do atual presidente Michel Temer. O novo governo enfrenta resistência nas ruas de parte da sociedade civil, sobretudo quando se coloca em pauta as reformas previstas pela administração peemedebista, coloca.

As possíveis mudanças na Previdência Social, como o aumento da idade mínima para aposentadoria; o ajuste fiscal e a regulamentação da terceirização para atividade-fim, previstas nas reformas previdenciária e trabalhista sob a batututa da Presidência da República são alvos de protesto no país.

Para Souza, essas mudanças significam nada mais do que a derrocada do país. “É um pacote que vai atrasar o Brasil 50 anos em cinco meses. Esse é o problema. Vamos retirar os direitos dos trabalhadores, que já têm pouco; vamos cortar a educação e saúde pública para o povo ser explorado. Vamos ter uma regressão política de grandes proporções”, avaliou o sociólogo.

Segundo ele, o governo federal pode se preparar para mais lutas nas ruas porque os brasileiros que tiveram uma ascensão social nos últimos anos, sobretudo com as gestões de Lula e Dilma, vão ter um ponto que irão protestar quando virem alguns direitos retirados. “Vamos ter uma regressão política de grandes proporções. Mas não acho que isso vai se dar sem consequências. O jogo político não é tão simples porque 40 milhões de pessoas subiram na vida e agora vão ter que descer. Vai explicar o que a elas? Que Jesus virou as costas?”, ironizou o professor.

Ainda de acordo com Jessé Souza, o que houve no país, antes de Dilma Rousseff ser impedida e deixar vaga sua cadeira de presidente do país, foi um boicote político. Na visão do acadêmico, o Congresso e a elite econômica são os grandes responsáveis pela condução do que ele chama de “golpe”.

“A economia estava indo muito bem; a crise econômica foi inventada politicamente para derrubar o governo. Teve boicote não só do Congresso, mas também dessa elite econômica, que deixou de investir. Ela retraiu investimentos, promoveu evasão fiscal”, destacou Souza, autor de 24 livros em sua carreira, todos voltados para o contexto político e social brasileiro.
“A crise fiscal do Estado se deve porque os ricos têm quase todo o dinheiro do país; eles compram o Congresso para que não sejam taxados. Se você não pode taxar esse pessoal, você tem que pedir emprestado a eles. Esse é o mecanismo da dívida pública, que o público não conhece simplesmente porque quase que a totalidade dos analistas econômicos não fala sobre”, completou.

O erro de Dilma

A elite econômica foi a grande articuladora do golpe, atuando por trás da mídia tradicional, contou Souza. Por trás desse grupo acumulador de riquezas, estava o capital financeiro. Para o professor, o erro de Dilma foi exatamente bater de frente com essa classe, atuante no agronegócio, comércio, indústria e outros setores econômicos, sem ter base, mecanismos de defesa.
“Se você pegar todas as frações do capital: o agronegócio, indústria, comércio, etc., eles confiam seus ganhos ao rentismo, ou seja, aos juros. Trabalhamos em grande medida para pagar juros a uma meia dúzia de pessoas”, disse Jessé Souza.

Ele conta que em 2012 a presidente Dilma fez um ataque a esse sistema ao pedir a redução dos juros bancários, “um ataque que a meu ver foi mal feito porque para você atacar quem manda no país você precisa estar bem armado”. A queda de braço, lembra o cientista político, durou até 2013, quando começaram as manifestações nacionais contra o aumento das tarifas dos transportes públicos, que rapidamente, manipuladas pela mídia, se transformaram em protestos contra o governo federal. Foi o início do processo de impeachment deste ano, pontua Souza.

Em 2018, quem é que vai competir com o Lula?

O livro mais recente do sociólogo Jessé Souza, 56, foi lançado há cerca de um mês. Intitulado “A radiografia do golpe: entenda como e por que você foi enganado”, a obra traz na visão do autor as circunstâncias e o cenário nacional por trás do processo de impeachment que derrubou Dilma Rousseff e colocou Michel Temer em seu lugar, no Palácio do Planalto. A saída da então presidente representou também o fim de 13 anos de gestão do Partido dos Trabalhadores, que começou com Luiz Inácio Lula da Silva, a partir de 2003.

Não foi raro ver nas redes sociais apoiadores da saída dos petistas da presidência lançarem frases do tipo: “o fim de uma era” ou “adeus, PT”, por exemplo. Contudo, abertamente contra o ainda bem recente processo de impedimento de Dilma, Jessé Souza não acha que o partido caracterizado pela estrela vermelha deixou o jogo político brasileiro.

A prova, indica o sociólogo, é o que ele chama de perseguição, existente contra a cúpula do PT e, sobretudo, contra Lula. “Não acho que se possa antecipar resultados políticos porque a política tem sempre uma luta pela narrativa, pela interpretação. Vejo agora uma perseguição ao partido nos últimos níveis, que inclusive, não me parece uma demonstração de força, mas sim de desespero”, destaca. “Se houver eleições em 2018, quem é que vai competir com o Lula?”, questiona Souza.

Segundo ele, nesse contexto político a grande mídia é uma das peças-chave, uma ferramenta de manipulação por quem quer ver Lula, Dilma e o PT longe da cadeira de presidente. “Temos uma imprensa de país ditatorial, que repete a fraude e a perseguição o tempo inteiro. Estamos entrando num quadro patológico”, pontuou.

O estímulo à educação e a ascensão econômica de cerca de 40 milhões de brasileiros desde 2003 são apontados pelo professor de ciência política da Universidade Federal Fluminense, em Niterói (RJ), como as causas do ódio de setores da sociedade ao PT, a maioria formados por uma classe média conservadora. Sendo o maior símbolo do partido, Lula é o principal alvo do anti-petismo, considerou.

“Por que as pessoas odeiam Lula? Não é ele, é o que ele representa. Embora eu tenha críticas ao governo petista por várias questões não terem sido contempladas, como a não redemocratização da mídia que, para mim, foi uma enorme ingenuidade; é inegável que Lula, em seu governo, propiciou a maior ascensão social em um país de mais de 500 anos de escravidão e desigualdade abissal. Essa é a grande questão, esse cara é odiado por isso”, ressaltou o professor.

É nesse contexto que grupos de pensamentos conservadores e até fascistas da classe média vão ganhando forma. Jessé Souza diz que foram mais de dez anos de ódio, ressentimento e medo reprimidos com a ascensão dos pobres. Esse setor da sociedade não gostou nada de ver seus empregados domésticos ou o auxiliar de serviços gerais do trabalho frequentarem os mesmos shoppings ou aeroportos. O golpe permitiu colocar esse sentimento reprimido para fora, conta Souza.
“A classe média não gostou nada disso, mas era uma irritação que você toma duas doses no barzinho e conversa com o amigo com mesmo pensamento e ficava nisso, porque é ilegítimo você, em um país cristão, ser contra as pessoas subirem na vida. Mas essa raiva já existia. Quando os governos petistas começaram a investir em ensino, no fundo essa classe média começou a ter medo, um medo irracional, de perder seu espaço”, afirmou o sociólogo.

O PT, na avaliação de Jessé, já havia escapado anos atrás de outra tentativa de golpe e saído de pé, no escândalo que ficou conhecido como ‘mensalão’. A partir desse episódio, a elite econômica e a mídia teriam encontrado os alvos perfeitos para personificar a corrupção brasileira: “Essa foi uma mentira estúpida, como se o PT tivesse inventado a corrupção. Você pega um partido só, um político só e esquece que o sistema político foi montado para ser corrupto”.

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